Como Mar


Mulheres Lobos


Termogenia


Fosse como chá
quente sobre o corpo frio
Líquido e fluído
a percorrer lento
desde a boca
ao âmago.
Amornar as vísceras,
a vida.
Rastro com cheiro de mato
gosto canela
Mascavo
Vapores agengibrados.
Aprumo térmico:
igual coberta em dia úmido
refresco nos áridos.
Goles de água morna
auxiliar digestivo
a confusas horas.


Tamara F. Menezes


Quarta-feira de Cinzas


Se o nosso amor já não tem salvado os dias
É tempo de partir
Fazer o ser meu parir
A força que sempre achei em ti
Quando tudo respirada mansidão
Fomos
Circuito festivo na passagem de blocos
Agora têm mais partículas soltas pelo ar
Nem confete ou serpentina
O frevo silenciou em Olinda.
Cada folião guarda em si
A certeza: “todo carnaval tem seu fim”.
E toda dor tem seu compasso
Numa quarta-feira de cinzas
Paciência, meu bem
Há mais festa ano que vem
Segue a cadência desta vida
Faz do medo percussão, e
Samba ao som da sua própria cuíca.





Tamara F. Menezes

Ida


Não há um átomo meu em
que você não reverbere.
Tenho-o em todas as lembranças
mesmo quando ainda não éramos
porque desde sempre
fui feita pra encontrá-lo
e nos achamos tão cedo
que fez a vida caminhar tão rápido
não senti
Agora faz-se tempo, meu bem
de seguir numa estrada nova
Não o chamo de passado
não o digo “não será” 
Quero um instante meu
No qual eu reine só num mundo solitário
Deixe-me ir
Deixe o seu corpo desatrelar de mim
para que eu seja também a outra parte
ou para que eu apenas siga
sem jamais esquecer que metade do que sou
é influxo seu
porque você me ensinou a ser gente
quando eu era bicho acuado
você me disse que eu seria poesia
antes mesmo de eu desejar ser poeta
você leu em meus olhos a minha ida
antes que eu me desse conta que  estava em fuga
porque você, meu bem, é o averso da minha alma
mas talvez  nesta vida,
sejamos somente desencontro
o mais vil dos descompassos
a maior das dores.




Tamara F. Menezes