Você é machista, moço!

É errado, moço
Tocá-la apenas pro seu prazer
Fazer dela paliativo
Pra dores que ela desconhecia

É errado, moço
Se a tateia, mas não a sente
Se a beija com a mente ausente

Tornar-lhe a forma inanimada
Diminuir-lhe a alma...
Quando ela esteve plena em seus braços

Você moço,
Não foi capaz de alcançar a vivaz presença dela
A vitalidade do corpo ali exposto
Respeitar a intensidade que ela transbordava

Saiba, mais que sob seu tato
Ela teria vibrado sob alguma verdade
Sob o conforto de palavras densas

Mas você moço,
Afastou-se como quem descarta
Num silêncio monossilábico...
E ela deixou-se ficar
A esperar respostas não vindas

Teceu conjecturas duras
E apesar da amargura
Ela se recomporá

Enquanto você moço, perpetua o conceito deturpado:
Julgando-se assim mais "másculo”.
É apenas mais um machista vil
De ego “viril” e feitio tão laxo!

Tamara F. Menezes





Enquanto o Tempo Passa por Mim


Patológica pressa pós-moderna
Não vejo a liquidez
De horas que nunca demoram mais que auroras
Eu tenho sido a calma soturna de demônios imortais
Eu tenho tido o cintilar pálido de arcos-íris invisíveis
Enquanto o tempo passa por mim
Eu estou lá e não me faço sentir
Eu, que nunca quis compor este mosaico decadente de coisas vis
Eu, que nunca quis quantitativos em expansão
Estou como um clichê da moda...

Quero ser o velho, o gasto, o roto outra vez
Quero o seu amor tolo,  
Exposto em tons pastéis
Ouvir vinil em som baixo, 
Ficar deitada em sua suavidade curva
Porque meu corpo ferve na maresia voraz do capital
Meu âmago definha com a insensatez risonha
A camuflar, irônica, a sagaz febre da grana
Nenhum crédito irá comprar as certezas que já tive
Do grita de quem tem fome e o sabe
Ele pode alimentar meninos nas sinaleiras vendendo balas
Mas ele apenas tem comprado terno e coisas caras...

Quero encontrar verdades como outrora
Saber se é tempo de partida
Demorar-me sem você pra quê?
Tenho coisas que nem uso
Sucumbi à força inexorável do consumo
Perdi o guia dos motivos banais:
Subir naquela colina de orquídeas estivais,
Contemplar deuses mortais

Quero recalcular os planos
Esquecer-me desta gente de bolsos cheios e almas mínimas
Eu quero apenas coisas pequenas, meu bem
Que o meu desejar seja profundo
E me livre da ganância de ter tudo!



Tamara F. Menezes

Moça

Ela dançava na pista
com a playlist mais cafona que existe
E sorria o riso mais piegas que já viste
Aquele sorrir pareceu-me triste
Mas dentro da madrugada que havia
Ela florescia
Entre a fresta do concreto
Invejei-lhe a força
Seu modo de conduzir o tempo
contra o fluxo próprio das coisas
O seu estar no mundo
Aquele sentir lato sobre tudo
Sua fluidez de mar
Flutuante no ar
O inverso de uma dor
Gentil como flor
Olhá-la era ouvir música boa
Observei-a
Até que ela se foi feito garoa
Viva, lúcida, gente!

Tamara F. Menezes

*fotografia de Bruno Braitt

* Trilogia para Ela

Grito

Eu grito
faço grunhidos eloquentes,
ferozes
eu viro bicho
ponho-me do avesso
ecoa só dentro
por fora, 
sou estética de gente
ninguém nota
esta angustia corrosiva 
que me assola.


Tamara F. Menezes





Descompasso

Fumo o último cigarro da carteira
Pra fazê-lo sorver
Minha fumaça por suas narinas
Já que não estou mais em suas retinas
Tornei-me invisível ao seu lado
E sobre o amor que em mim ainda é brasa
Em seu ser se fez cinzas
Que o vento espelha...


Tamara F. Menezes

Brasa


Trago o cheiro seu
Como o último cigarro da carteira
Delirante que não finde
E quando solto, da boca, a fumaça
Já transitou meu corpo inteiro
Coloco as cinzas no cinzeiro
Antes que me queimem as mãos
Mas o coração...
Esse já se fez todo brasa.

Tamara F. Menezes


Fragmentos Dispersos

        à querida amiga Rose 
 

Solta este cabelo que é espelho de sol
Exibe o riso lindo maior que as fundas dores
O meu ser deseja o seu bem
Ver o mundo devolvê-la a hospitalidade
De cada abraço seu que me foi afago
Tal como cada bicha, viada ditas
Sob nosso prisma peculiar de sermos amigas
Eu choro por não ser imune à saudade
Seguir é deixar tanto
Em cada partida sinto-me fragmentos dispersos
De seres aos quais me apego
Distância não finda amizade, bem sei
E não há saudade que o tempo não desarme
Meu choro é querer levar comigo
O cotidiano das banalidades matinais
É fazer sua boca tingir-se de coral outra vez
Desejo ficar
Para não deixar de ver
Essa força sua de ser vida
Essa graça sua de ser doida
Essa coisa sua de ter resiliência!


Tamara F. Menezes






Sangria

Deixe a dor fluir
Vazar até secar
Não prende esse choro, moço
A afogar a alma
Deixe transbordar, de pressa
Lágrima e soluço
Convulsionar
Alente a cabeça no travesseiro
Adormece a dor no peito
Até estancar!

Tamara F. Menezes

Em Calma

Acordei sem saber se era cedo
Decidi não lembrar que era hora
Para ver se o tempo esquecia-se de mim
Deixava-me cá em meu canto
Sem suas urgências impositivas
Estas ardências ensandecidas
Do que é pressa
E não pode atrasar
Do que é mundo
E precisa andar
Do que quer tudo
E não sabe sossegar.

Tamara F. Menezes

Pedido

                   a Bruno Braitt

Pediu-me
Uma poesia que não fosse dor
Ah menino!
O poeta deseja falar de amor
Mas é um ser, por natureza, sofredor
Ele tenta escrever o belo
Mas de repente está falando da mágoa
Que um dia o transbordou.





Tamara F. Menezes



*fotografia de Bruno Braitt

Miniconto Sobre Dores Findas


Deixou o vento bagunçar-lhe os cabelos
Harmonizar-se com a vida
Meio despenteada
Meio charme.
Passou um blush rosé
Ia sair “prum” rolê
Voltou ao espelho
Queria cobrir as dores com vermelho
Pintou a boca de mate coral
Afinal,
Não há dor que “pra” sempre dure
E nada que um batom escarlate não cure!


Tamara F. Menezes

Mãe

Imagino suas lutas para me cuidar
A dúvida entre o educar e o não magoar
Lembro-me da delicadeza ao dizer não
E o sorriso tão presente em cada conquista que tive
Você que é a cicerone da minha vida
Porque pelos seus olhos eu vi o mundo
Pela sua mão eu encontrei meu caminho
Todas as orações que por mim entoou
Iluminaram os meus passos e me trouxeram até aqui
Em você eu entendi o conceito da infinitude e grandeza
Só em você mãe,
Eu senti a forma de força mais forte
Aquela que só o amor mais puro move

Tamara F. Menezes