Ida


Não há um átomo meu em
que você não reverbere.
Tenho-o em todas as lembranças
mesmo quando ainda não éramos
porque desde sempre
fui feita pra encontrá-lo
e nos achamos tão cedo
que fez a vida caminhar tão rápido
não senti
Agora faz-se tempo, meu bem
de seguir numa estrada nova
Não o chamo de passado
não o digo “não será” 
Quero um instante meu
No qual eu reine só num mundo solitário
Deixe-me ir
Deixe o seu corpo desatrelar de mim
para que eu seja também a outra parte
ou para que eu apenas siga
sem jamais esquecer que metade do que sou
é influxo seu
porque você me ensinou a ser gente
quando eu era bicho acuado
você me disse que eu seria poesia
antes mesmo de eu desejar ser poeta
você leu em meus olhos a minha ida
antes que eu me desse conta que  estava em fuga
porque você, meu bem, é o averso da minha alma
mas talvez  nesta vida,
sejamos somente desencontro
o mais vil dos descompassos
a maior das dores.




Tamara F. Menezes


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