Enquanto o Tempo Passa por Mim


Patológica pressa pós-moderna
Não vejo a liquidez
De horas que nunca demoram mais que auroras
Eu tenho sido a calma soturna de demônios imortais
Eu tenho tido o cintilar pálido de arcos-íris invisíveis
Enquanto o tempo passa por mim
Eu estou lá e não me faço sentir
Eu, que nunca quis compor este mosaico decadente de coisas vis
Eu, que nunca quis quantitativos em expansão
Estou como um clichê da moda...

Quero ser o velho, o gasto, o roto outra vez
Quero o seu amor tolo,  
Exposto em tons pastéis
Ouvir vinil em som baixo, 
Ficar deitada em sua suavidade curva
Porque meu corpo ferve na maresia voraz do capital
Meu âmago definha com a insensatez risonha
A camuflar, irônica, a sagaz febre da grana
Nenhum crédito irá comprar as certezas que já tive
Do grita de quem tem fome e o sabe
Ele pode alimentar meninos nas sinaleiras vendendo balas
Mas ele apenas tem comprado terno e coisas caras...

Quero encontrar verdades como outrora
Saber se é tempo de partida
Demorar-me sem você pra quê?
Tenho coisas que nem uso
Sucumbi à força inexorável do consumo
Perdi o guia dos motivos banais:
Subir naquela colina de orquídeas estivais,
Contemplar deuses mortais

Quero recalcular os planos
Esquecer-me desta gente de bolsos cheios e almas mínimas
Eu quero apenas coisas pequenas, meu bem
Que o meu desejar seja profundo
E me livre da ganância de ter tudo!



Tamara F. Menezes

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